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14/11/2010 – Culto africano e pré-casamento

Essa última noite não foi tão tranquila quanto as outras. 00:15h acordei com um rato mexendo nas comidas e um pernilongo dentro do meu “mosquito-net” (aquelas redinhas que coloca por sobre a cama). Levei uns 30min para espantá-los sem acordar o Rodrigo. Estava muito quente e abafado.

Consegui dormir novamnete, mas por volta das 3:00h sonhei com uma feiticeira típica da região com dois acompanhantes. No sonho, muito real por sinal, a feiticeira invade a casa onde eu estava e diz para mim: “É melhor você acreditar no seu Deus senão não vai conseguir sair daqui”, na mesma hora o Rodrigo começou a definhar desesperadamente e muito rápido. No tempo em que eu declarei “te repreendo em nome de Jesus” a feiticeira me levanta pelo pescoço e então acordo. No quarto não conseguia ver nem um palmo na minha frente, mas pude sentir uma presença muito malígna. Só me restou orar e depois de algum tempo consegui dormir. Quando acordei pela manhã entendi que era uma guerra espiritual por que hoje eu seria o pregador do dia (e acredite se quiser, a partir desse sonho minha garganta ficou muito ruim, como se tivesse realmente levado uma pancada muito forte nela, custava engolir até minha própria saliva, só foi melhorar quando cheguei em Nairobi).

O culto começou as 7:00h e foi até umas 14:00h (muito diferente do Brasil que geralmente os cultos tem apenas cerca de 2 horas de duração). Muita música, muita dança e apresentações. Chegou minha vez de pregar. Apesar de conseguir me comunicar bem em inglês preferi pregar em português, assim seria mais fácil pra mim. O pr Marcelo me traduziu para inglês e uma mulher o traduziu para árabe. Me senti importante com esse tanto de tradutores! Foi uma mensagem simples e edificante sobre o obstinado amor de Deus manifesto na Cruz para nos salvar. Voltamos correndo pra casa para fazer almoço, pois em pouco tempo iniciaria o pré-casamento.

O evento foi na mesma igreja “Redeemed Church” do pr Joshua. Ao entrar, Rodrigo e eu tivemos que pagar cerca de R$ 7,00 e o pr Marcelo uns R$ 40,00 por ser um convidado especial. Teve música e pregação. Depois os noivos foram apresentados e iniciam um momento de recolher dinheiro dos convidados. Todo esse dinheiro é para ajudar a pagar o dote da noive (16 vacas no valor de mais ou menos R$ 350,00 cada) mais a festa que dura de 3 a 7 dias dando comida para os convidados e penetras, e ái do noivo se a comida não for boa.

Nesse pré-casamento os convidados especiais fazem tipo de uma comitiva ali mesmo para decidir como vão distribuir o dinheiro arrecadado. Os noivos não podem palpitar em nada. Saímos antes de acabar (começou as 15h e foi acabar depois das 20h). Não estávamos legal, pois além do calor estar muito forte nesse dia o som estava super ultra alto. Voltamos para guest house e fomos descansar.

Aqui na guest tem um barzinho funcionando junto. Das 18h às 22h o gerador de energia é ligado, então a TV fica ligada e os vizinhos vem para cá. Nesse dia passou futebol. Achei muito interessante, os sudaneses para assistir um jogo é muito parecido com os brasileiros, vibram, gritam, sofrem e aplaudem.

Fomos jantar e por mais de uma hora conversamos sobre missões e o papel das escolas de treinamneto missionário, mais uma grande aula com o pr Marcelo.  No outro dia seria só para descanso, sem nada para fazer, então não terei nada para escrever. Os dias em Torit estão chegando ao fim, daqui dois dias partiríamos para Kakuma, norte do Quênia com muitas experiências novas.


12/11/2010 – Um tempo com as crianças

Uau! Foi a noite que mais dormimos, acredito que seja por causa do cansaço do dia anterior. Era umas 9h quando Rodrigo e eu fomos para a casa das crianças. A intenção era ir pesquisar o tamanho que elas vestinhas e suas necessidades quanto a roupas. Um obreiro, o Emmanuel se prontificou para fazer isso, então o Rodrigo teve uma idéia. Ele pegou seus fantoches africaninhos e foi contar uma história para as crianças. Como elas riram, acredito que nunca tinham visto fantoches antes. Depois cantamos, dançamos e brincamos com elas, eu até joguei bola, acredita nisso?

Voltamos para almoçar. Enquanto o comíamos o pr Marcelo nos deu uma grande aula de missiologia. Depois o pr Joshua chegou e fomos tratar alguns assuntos burocráticos e de segurança da casa das crianças. Tanto o pr Marcelo quanto o pr Joshua me surpreenderam por conta de tanta sabedoria que eles tem.

Rodrigo e eu fomos outra vez para casa das crianças, só que desta vez apenas conversamos com eles. Logo voltamos para ghest pois já havia escurecido. O dia passou muito rápido. A cada momento que passo com as crianças um pedaço de mim fica com eles, são muito amáveis.


11/11/2010 – Viagem para Kapoeta

Cada dia que passa as noites se tornam melhores e o calor tolerável, na verdade já até acostumei com o calor. Hoje pude escutar as crianças cantando e louvando a Deus por volta das 5h. Não consegui dormir mais, então fui me preparar para mais uma viagem. Agora iríamos para Kapoeta, uma pequena, mas importante cidade a uns 150km de Torit. Lá é a terra da tribo Toposa, são um povo muito primitivo e um tanto selvagem. A fronteira terrestre entre Sudão e Quênia foi fechada por que os Toposas estavam entrando no Quênia para matar e roubar o gado dos Turkanas que vivem perto da fronteira.

Por volta das 8h saímos para comprar e arrumar algumas coisas que faltavam e as 9h pegamos a estrada. Desta vez não paramos em nenhum lugar a não ser nas barreiras entre os distritos. Levamos quatro horas e meio para chegar lá. Segundo o pr Marcelo, a última vez que ele fez aquele mesmo percurso gastou cerca de sete horas e meio, mas agora algumas partes da estrada foram restauradas. No caminho vimos menos vilas do que no caminho para Ikotos, pois Capoeta fica numa região desértica. Muita poeira, ficamos todos marrom, sem exagero. Em particfular uma aldeia me chamou a atenção, ela ficava numa montanha de aproximadamente 2000m, lá de baixo apenas víamos as pontas dos tukos que se diferenciavam das árvores. Como será que subiram lá? Essa era minha pergunta. Provavelmente nunca viram um extrangeiro. Assim como eles existem milhares e milhares de pessoas que nunca viram ou ouviram falar de Jesus.

Na medida que nos aproximávamos de Capoeta avistávamos alguns Toposas todos adornados e com seus cajados e banquinhos. Quando chegmaos ficamos surpreendidos, pois vimos postes de eletricidade. Capoeta é a primeira cidade do Sudão do Sul a ter energia elétrica. A razão disso é que os Toposas controla todo gado do Sul além de terem minas de diamante e ouro.

A cidade em sim não é muito diferente das outras que fomos. Homens sentados por todo lado conversando e as mulheres carregando grandes sacos de farinha e toras de madeira na cabeça. Em todo lugar é assim, o homem conversa a mulher trabalha. Ninguém nos cumprimentava, todos muito sérios. Alguns com trajes normais e outros bem típicos com seus adornos, principalmente as mulheres e adolescentes. As mulheres são lindas com postura de bailarina, mas muito sisudas. Quase não vimos sorrisos, diferente de Ikotos e Dongotono onde todo mundo ria, vinham nos cumprimentar ou faziam festa. Em Kapoeta só uma mulher que ficou pulando (detalhe, com os seios de fora), é como se fosse um sinal de boas-vindas para os Toposas.

Chegamos na casa de Lorem, um obreiro que a MCM assiste naquela cidade. Conversamos e fomos preparar nosso almoço, pois já eram 15h. Quebramos todos os paradgmas possíveis naquela tarde. Três homens brancos fazendo comida e além disso para todos. Estávamos em 11 pessoas contando com a família do Oryen e pr Joshua. Comemos macarronada, as crianças riam muito, pois comiam usando a mão, estava muito quente (foi feito no carvão em brasa em meio a pedras) e ainda o macarrão ficava pindurado. Oryen tem 5 filhos, sua esposa estava grávida do quinto sexto filho. A sua casa deve ter 2x6m no máximo, apenas uma cama de solteiro, não pergunta como dormem 7 pessoas num espaço daquele.

Discutimos algumas coisas sobre a segurança deles e sobre o trabalho dele. Nos despedimos e retornamos para Torit. Chegamos muito sujos por volta das 22h. Cansados fomos comer e dormir.


10/11/2010 – Viagem pra Ikotos

Combinamos a viagem para Ikotos com o pr Joshua e até a plantação de batatas das viúvas que a MCM assiste. Sairiamos às 08:00. Ficamos na porta da guest hous esperando ele vir nos pegar. Enquanto esperávamos algumas crianças da casa veio e ficou conosco. Foi um tempo bom com elas, são tão lindas e muito alegres. Por volta das 11h o pr apareceu, mas apenas pegou nossas coisas e disse que já voltava para nos pegar. Mas como conhecemos o horário africano decidimos preparar nosso almoço. Ele chegou e comeu conosco.

Todos prontos fomos para o carro (uma camionete Toyota 4×4 doada por uma senhora americana que vive na Uganda). Muito espectativa de nós extrangeiro, pois passaríamos em tribos que nunca tiveram contato com homem branco. Seriam cerca de 45 km de muita emoção.

Nos primeiros 40 minutos andamos numa rodovia que a pouco tinha sido reformada, então pudemos correr entre 80 a 100 km/h. Mas quando tivemos que sair dessa boa estrada entramos em caminhos que só dava pra fazer 20 km/h. Foi verdadeiramente uma aventura. Atravessamos barro, buracos e até mesmo dentro de um rio (pode acreditar, a água chegou a cobrir a frente do carro quase chegando a água no parabrisa). Ikotos fica numa região montanhosa, então as paisagens eram divinas. De tempo em tempo cruzávamos tribos e possoas muito diferentes e exóticas.

Primeiro paramos em Lotukos para cumprimentar uam irmão do pr Joshua, tinha soldados e coca-cola por toda parte. Seguimos por uma estrada muito estreita de lamaçais e mato, damos graças a Deus pelo carro doado, sem dúvida um carro comum jamais passaria por aquelas estradas, sem contar que o motorista era experiênte naqueles tipo de estradas (ah, o motorista foi o pr Marcelo, profissional). Me senti no rali do sertão!

Segunda parada na plantação de batatas das viúvas. O campo deve ter uns 20x50m seguido de uma paisagem magnífica. Esse programa com as viúvas é corrdenado pelo pr Marcelo para que com essas batatas as viúvas possam ter seu sustento vendendo-as. Passamos por algumas tribos de onde algumas das nossas crianças vieram, umas em montanhas e outras em vales.

Terceira parada na tribo Dongotono. Nos deparamos com muitas crianças, talvez umas 60 delas sentadas debaixo de uma grande árvore. Ali, bem naquela árvore finciona a escola delas, sem carteiras, sem cadeiras e nem material apropriado. Conhecemos o líder da tribo, um senhor muito sorridente. Eles vivem uma vida muito simples sem energia ou comunicação e em paz, lá é um lugar onde a guerra não alcançou, tem água, solo fértil cercado de montanhas maravilhosas, um paraíso.

Hoje o povo Dongonoto daquela região são 100% animistas envolvidos com bruxarias, curandices e provavelmente com sacrifício de animais. Sengundo eles são aproximadamente 30000 pessoas espelhadas daquele lando da montanha e do outro lado pode chegar a uns 20000 pessoas. Só sabemos que é um povo que precisa muito conhecer a Jesus, estão em total trevas. Eles anseiam que um missionário fique lá para apresentar-lhes Jesus, quem sabe eu não volte lá e estabeleça uma obra? Estamos orando pra isso.

Seguimos viagem e paramos num outro vilarejo Dongotono que eles chamam de Center Village, lá tem escola, mercado, hospital, é bem estruturado. Fomos visitar um obreiro, mas ele não estava lá, tinha ido pra Ikotos. Ficamos conhecendo o diretor da escola e o pai do pr Joshua. Pela primeira vez entrei num tuko, é impressionante, do lado de fora fazendo mais 40 graus e dentro do tuko não passa de 28 graus.

Última parada em Ikotos. Parecia mais uma cidade de tukos do que um vilarejo, tem até prefeitura. Muita gente, muita criança, aliás, o que mais víamos nessa viagem foram crianças. Lá encontramos o obreiro e ele nos levou a um senhor chamado Wilson, ele é um tipo de vice-prefeito daquela vila, muito simpático e humilde, um cristão genuíno. Conversamos sobre o Referendum e a segurança das nossas crianças. Ali era o ponto mais seguro e próximo da fronteira da Uganda (apenas a 16km) caso haja necessidade de refugiarem lá, isso se estourar novamente a guerra.

Infelizmente chegamos muito tarde lá, então não tivemos tempo de fazer alguma atividade com as crianças de lá que a maioria delas nunca viram um branco. Voltamos e chegamos em casa por volta das 21h. Foi um dia maravilhoso e inesquecível para todos nós. Fizemos 45km em três horas e meia.


08/11/2011 – Chegada em Torit | Sul do Sudão

Esse é o primeiro dia de muitos que serão relatados aqui. Foram 17 dias de muitas descobertas, experiências e emoções pelo sul do Sudão e norte do Quênia.

6:00 da manhã, malas prontas, deixamos nossa casa e fomos para Wilson Airport. Fizemos nosso check in na MAF, uma empresa aérea missionária. Às 8:00 entramos num monomotor de 9 lugares, ao todo éramos em 4 passageiros: pr Marcelo, Rodrigo, Catheryn (uma missionária que está morando numa montanha próxima de Torit entre as tribos Tukos há 4 anos) e eu. O piloto orou conosco e decolou, a previsão era de 4 horas de vôo.

Primeira parada em Lokichokio para pegar um casal de missionários. Logo decolamos e uma hora depois o piloto pousa em uma pista meio que improvisada no pé de uma montanha. Lá estava um casal muito jovem esperando pela Catheryn, deixamos ela e seguimos viagem. Menos de meia hora pousamos em Torit. Muita emoção.

De dentro do avião víamos as 120 crianças da casa dos órfãos (Heirs of God Sudan) cantando e batendo palmas. Rodrigo e eu não conseguimos conter as lágrimas (apenas de escrever relembrando aquele momneto lágrimas correm novamente). Fomos até elas e pegamos na mão de todas elas, uma por uma. Cantamos e dançamos duas músicas ali no aeroporto mesmo, nos despedimos e fomos para o centro da cidade.

Já no centro, tumo muito simples, compramos água, sabão em pó e mais algumas coisas que precisaríamos. Fomos para uma guest house e alugamos dois quartos, realmente tudo muito simples, mas bem limpo e organizado. Descançamos um pouco da viagem e fomos almoçar (isso já quase 16h). Depois disso nos arrumamos e fomos conheer as duas casa dos órfãos, logo virando a guest house.

Meu Deus! Rodrigo e eu ficamos profundamente impactados quando chegamos lá. Tudo muito, muito, muito simples (pra não dizer precário) ainda mais quando sabemos que é muitíssimo mais do que eles tinham antes de ir pra lá. Tudo isso me deixa indignado com o governo daqui no Sudão e com as igrejas brasileiras que gastam milhões em tijolos e megas extruturas para impressionar a homens (apenas a homens, pois Deus não olha para construções humanas que um dia vai passar) ao invés de investir no principal que são vidas. Acredito que se ajuntar apenas 5 igrejas brasileiras para investir pesado nessa obra no Sudão mudaria radicalmente a vida daquelas 120 crianças de lá além de poder dar mais extrutura pra receber novas crianças.

Aqui vimos onde eles estudam, deu vontade de chorar; olhei onde eles moram, deu vontade de chorar; vimos a igreja deles, deu vontade de chorar; vimos o quanto a igreja poderia fazer alguma coisa e não fez, deu vontande de chorar.

Quando vimos a alegria das crianças, os “bigs” sorrizos, o cuidado com elas, o amor e carinho, ah….. isso sim mata a gente. Mesmo nessa toda falta de infra-estrutura dá vontade de ficar aqui pra sempre. São tão amorosos, tão lindos, alguns com areia até na cabeça, mas tão fofas. Eles sim tocaram meu coração. Voltamos para guest house e fomos descansar mais um pouco, tomar banho e jantar. Alias, o clima aqui é muito quente, muito mesmo. Fomos dormir cedo, pois aqui na guest só tem energia das 18h às 22h. Chuveiro quente? Esquece. Vaso sanitário? Esquece.

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