Arquivo da tag: diario

11/11/2010 – Viagem para Kapoeta

Cada dia que passa as noites se tornam melhores e o calor tolerável, na verdade já até acostumei com o calor. Hoje pude escutar as crianças cantando e louvando a Deus por volta das 5h. Não consegui dormir mais, então fui me preparar para mais uma viagem. Agora iríamos para Kapoeta, uma pequena, mas importante cidade a uns 150km de Torit. Lá é a terra da tribo Toposa, são um povo muito primitivo e um tanto selvagem. A fronteira terrestre entre Sudão e Quênia foi fechada por que os Toposas estavam entrando no Quênia para matar e roubar o gado dos Turkanas que vivem perto da fronteira.

Por volta das 8h saímos para comprar e arrumar algumas coisas que faltavam e as 9h pegamos a estrada. Desta vez não paramos em nenhum lugar a não ser nas barreiras entre os distritos. Levamos quatro horas e meio para chegar lá. Segundo o pr Marcelo, a última vez que ele fez aquele mesmo percurso gastou cerca de sete horas e meio, mas agora algumas partes da estrada foram restauradas. No caminho vimos menos vilas do que no caminho para Ikotos, pois Capoeta fica numa região desértica. Muita poeira, ficamos todos marrom, sem exagero. Em particfular uma aldeia me chamou a atenção, ela ficava numa montanha de aproximadamente 2000m, lá de baixo apenas víamos as pontas dos tukos que se diferenciavam das árvores. Como será que subiram lá? Essa era minha pergunta. Provavelmente nunca viram um extrangeiro. Assim como eles existem milhares e milhares de pessoas que nunca viram ou ouviram falar de Jesus.

Na medida que nos aproximávamos de Capoeta avistávamos alguns Toposas todos adornados e com seus cajados e banquinhos. Quando chegmaos ficamos surpreendidos, pois vimos postes de eletricidade. Capoeta é a primeira cidade do Sudão do Sul a ter energia elétrica. A razão disso é que os Toposas controla todo gado do Sul além de terem minas de diamante e ouro.

A cidade em sim não é muito diferente das outras que fomos. Homens sentados por todo lado conversando e as mulheres carregando grandes sacos de farinha e toras de madeira na cabeça. Em todo lugar é assim, o homem conversa a mulher trabalha. Ninguém nos cumprimentava, todos muito sérios. Alguns com trajes normais e outros bem típicos com seus adornos, principalmente as mulheres e adolescentes. As mulheres são lindas com postura de bailarina, mas muito sisudas. Quase não vimos sorrisos, diferente de Ikotos e Dongotono onde todo mundo ria, vinham nos cumprimentar ou faziam festa. Em Kapoeta só uma mulher que ficou pulando (detalhe, com os seios de fora), é como se fosse um sinal de boas-vindas para os Toposas.

Chegamos na casa de Lorem, um obreiro que a MCM assiste naquela cidade. Conversamos e fomos preparar nosso almoço, pois já eram 15h. Quebramos todos os paradgmas possíveis naquela tarde. Três homens brancos fazendo comida e além disso para todos. Estávamos em 11 pessoas contando com a família do Oryen e pr Joshua. Comemos macarronada, as crianças riam muito, pois comiam usando a mão, estava muito quente (foi feito no carvão em brasa em meio a pedras) e ainda o macarrão ficava pindurado. Oryen tem 5 filhos, sua esposa estava grávida do quinto sexto filho. A sua casa deve ter 2x6m no máximo, apenas uma cama de solteiro, não pergunta como dormem 7 pessoas num espaço daquele.

Discutimos algumas coisas sobre a segurança deles e sobre o trabalho dele. Nos despedimos e retornamos para Torit. Chegamos muito sujos por volta das 22h. Cansados fomos comer e dormir.


09/11/2010 – Tentando conhecer Torit

Dormimos bem tirando os barulhos que de vez enquando nos acordava ou visitas indesejadas de sapos, ratos, grilos mutantes e mosquitos. Aqui todos acordam cedo. Daqui pudemos ouvir as crianças cantando louvando a Deus e orando por volta das 5h da manhã, um pouco depois, creio que um pelotão do exército passou aqui na porta marchando e cantando suas rimas de guerra.

Conseguimos dormir mais um pouco depois dessas coisas e levantamos por volta das 8h, banhamos e tomamos nosso café (pão e leite). Saímos para conhecer a cidade, mas estava quase tudo fechado e soldados por todo lado com diversos tipos de uniformes, sabíamos então que algo importante estava acontecendo.

Encontramos um conhecido no mercado central (aliás, o único lugar aberto) e ele nos disse que todo dia 09 de cada mês até o Referendum é feriado nacional para celebrações do governo e orações pelo Referendum. E por falar no mercado central vimos gente por toda parte, muito peixe seco, verduras e frutas. Segundo pr Marcelo era um tempo de fartura por conta das chuvas, mas que no período de seca é difícil achar alguma coisa naquele mesmo mercado tão grande.

Em menos de uma hora conhecemos a cidade a pé. As únicas contruções de qualidade ou é prédio do governo ou da ONU, exceto o Hospital Estadual, muito triste, víamos os doentes deitados naquele chão de terra debaixo das árvores. Ali se alguém tiver alguma doênça grave não tem outro caminho senão a morte.

De um lado da rua um grande e milionário prédio do governo, e do outro tukos (tipo cabanas de índios brasileiros) e muita miséria. É um tipo de contradição social que se acha em todo mundo.

Depois de nossa visita a cidade fomos para a casa das crianças. Elas não foram para escola, estavam de folga durante a semana para estudarem para os exames na próxima semana. Os maiores estavam na escola que faz parte da “Hers of God Home” estudando inglês numa sala, matemática em outra e na terceira o Rodrigo estava brincando de macinha com os menores. Enquanto isso eu tirava algumas fotos e brincava de bola com alguns garotos.

Foi muito divertido e satisfatório em saber que em coisas tão simples podemos contribuir para alegria daquelas crianças. Algumas delas já se tornaram “meus brothers”, isso pra mim é tremendo demais. Voltamos para guest house para esperar o pr Joshua ir nos pegar para almoçar em sua casa. Aqui funciona o horário africano, se alguem marcou as 13h alguma coisa, pode saber que vai chegar depois das 14h. Sabendo disso fomos pra casa dele.

Quando chegamos o almoço estava sendo preparado por algumas das meninas da casa dos órfãos. A comida foi preparada no chão em cima de brasas e pedras, muito interessante e quente. Mesa pronta, pr Joshua não tinha chegado (estava numa reunião). Fomos comer sem ele, pois já eram quase 16h.Uma mulher veio com uma bacia e água para lavarmos as mãos.

Comemos carne de panela, ovo com tomate, arroz, ugali, chapati, uma carne seca e repolho refogado. Tudo muito gostoso, bem temperado, tivemos que repetir. Após terminar de comer descobrimos que a carne seca que comemos era uma parte muito peculiar do cabrito que prefiro nem citar qual é, dá pra acreditar?

Enfim pr Joshua chega e enquanto ele e outros convidados almoçavam conversamos sobre muitos assuntos, inclusive dos milagres que Deus tem realizado ali em Torit. Ao sair de lá levamos um garoto que estava muito doente pra fazer um exame de sangue, o resultado veio e confirmou que ele estava com malária. Demos o medicamento adequado e voltamos pra casa. Estava fresco a noite, pois havia chovido.

Confira algumas fotos:


08/11/2011 – Chegada em Torit | Sul do Sudão

Esse é o primeiro dia de muitos que serão relatados aqui. Foram 17 dias de muitas descobertas, experiências e emoções pelo sul do Sudão e norte do Quênia.

6:00 da manhã, malas prontas, deixamos nossa casa e fomos para Wilson Airport. Fizemos nosso check in na MAF, uma empresa aérea missionária. Às 8:00 entramos num monomotor de 9 lugares, ao todo éramos em 4 passageiros: pr Marcelo, Rodrigo, Catheryn (uma missionária que está morando numa montanha próxima de Torit entre as tribos Tukos há 4 anos) e eu. O piloto orou conosco e decolou, a previsão era de 4 horas de vôo.

Primeira parada em Lokichokio para pegar um casal de missionários. Logo decolamos e uma hora depois o piloto pousa em uma pista meio que improvisada no pé de uma montanha. Lá estava um casal muito jovem esperando pela Catheryn, deixamos ela e seguimos viagem. Menos de meia hora pousamos em Torit. Muita emoção.

De dentro do avião víamos as 120 crianças da casa dos órfãos (Heirs of God Sudan) cantando e batendo palmas. Rodrigo e eu não conseguimos conter as lágrimas (apenas de escrever relembrando aquele momneto lágrimas correm novamente). Fomos até elas e pegamos na mão de todas elas, uma por uma. Cantamos e dançamos duas músicas ali no aeroporto mesmo, nos despedimos e fomos para o centro da cidade.

Já no centro, tumo muito simples, compramos água, sabão em pó e mais algumas coisas que precisaríamos. Fomos para uma guest house e alugamos dois quartos, realmente tudo muito simples, mas bem limpo e organizado. Descançamos um pouco da viagem e fomos almoçar (isso já quase 16h). Depois disso nos arrumamos e fomos conheer as duas casa dos órfãos, logo virando a guest house.

Meu Deus! Rodrigo e eu ficamos profundamente impactados quando chegamos lá. Tudo muito, muito, muito simples (pra não dizer precário) ainda mais quando sabemos que é muitíssimo mais do que eles tinham antes de ir pra lá. Tudo isso me deixa indignado com o governo daqui no Sudão e com as igrejas brasileiras que gastam milhões em tijolos e megas extruturas para impressionar a homens (apenas a homens, pois Deus não olha para construções humanas que um dia vai passar) ao invés de investir no principal que são vidas. Acredito que se ajuntar apenas 5 igrejas brasileiras para investir pesado nessa obra no Sudão mudaria radicalmente a vida daquelas 120 crianças de lá além de poder dar mais extrutura pra receber novas crianças.

Aqui vimos onde eles estudam, deu vontade de chorar; olhei onde eles moram, deu vontade de chorar; vimos a igreja deles, deu vontade de chorar; vimos o quanto a igreja poderia fazer alguma coisa e não fez, deu vontande de chorar.

Quando vimos a alegria das crianças, os “bigs” sorrizos, o cuidado com elas, o amor e carinho, ah….. isso sim mata a gente. Mesmo nessa toda falta de infra-estrutura dá vontade de ficar aqui pra sempre. São tão amorosos, tão lindos, alguns com areia até na cabeça, mas tão fofas. Eles sim tocaram meu coração. Voltamos para guest house e fomos descansar mais um pouco, tomar banho e jantar. Alias, o clima aqui é muito quente, muito mesmo. Fomos dormir cedo, pois aqui na guest só tem energia das 18h às 22h. Chuveiro quente? Esquece. Vaso sanitário? Esquece.

Confira as fotos:


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.