Arquivo da categoria: Viagem Sudão/Kenya

Boletim Outubro Sudão 2011

Um mês já se passou nessa terra seca (apesar das chuvas) chamada Sudão. Foi realmente um mês para adaptação ao clima quente e seco e também a essa cultura tão diferente da brasileira.

Deus é soberano e sabe todas as coisas. Nós fazemos planos, mas é Ele, somente Ele que decide tudo. Os meus planos era de vir dar um suporte a casa dos nossos órfãos e fazer viagens ao redor dando início a implantação de igrejas onde Jesus ainda não foi anunciado.

Para minha surpresa o trabalho com as crianças ocupou todo meu tempo. Nesse tempo fui administrador, pai, pastor, amigo, irmão e até mesmo enfermeiro (dá pra acreditar hehe). As crianças são um máximo, muito amáveis e fácil de se apegar.

Nesse tempo estive ao lado da aluna da MCM Marise que desempenhou um excelente trabalho com as crianças na questão de saúde, a alimentação e higiene delas. Eu pude aprender bastante.

Os desafios são grandes assim como as necessidades. Sonhamos em dar uma ótima estrutura para nossas crianças, mas ainda nos resta uma longa caminhada. O fato delas terem um abrigo, alimento, escola e pessoas que as amam já é um grande milagre em vista da história desse país marcado com tantas guerras e destruição onde tudo é muito caro.

Creio que neste mês de Novembro pastor Joshua e eu começaremos nossas viagens missionárias nos lugares onde o evangelho ainda não chegou. Conto com a oração da igreja brasileira. Que o nome de Jesus seja conhecido e temido no interior do Sudão.


O lugar mais faminto do mundo

Akobo-A Cidade Mais Esfomeada do Mundo – Akobo (dados da ONU)

Sudão é o maior país da África. É um dos grandes produtores mundiais de petróleo. Suas riquezas minerais são imensas e boa parte ainda desconhecida.

O Sudão tem terras férteis e prontas para o plantio da maioria das lavouras do planeta.

O Sudão tem um lado turístico nunca explorado:

Ele reúne as pirâmides do tempo dos Faraós, mas tem também preciosos animais em suas montanhas e florestas. Ainda em suas belezas naturais, tem o Rio Nilo. Rio histórico, belo e navegável, amplamente cultivado em suas margens.

Sua capital, Cartum, é uma das maiores e mais lindas capitais africanas, contando com mais de quatro milhões de habitantes.

As estatísticas têm mostrado, desafortunadamente, um país que quase nada desfrutou de seus recursos naturais e humanos.

-A guerra civil mais longa do mundo, que na verdade nunca cessou totalmente. Os números são divergentes, entre 2 e 4 milhões de vítimas.

-O maior desastre humano deste século: Darfur.

-O maior número de refugiados do mundo.

-O Sudão tem, segundo a ONU, uma outra marca de dor e sofrimento:

A cidade mais esfomeada do mundo:

Akobo

O lugar é tão difícil e oprimido, que missionários locais evitam abrir campos naquele lugar. A miséria campeia por todos os lados. Literalmente a cidade está morrendo de fome e sede dia após dia.

Akobo é a terra da tribo Anuak.

Eles são facilmente identificados pelas inúmeras pintas que fazem na face. Estes sinais são feitos a ferro e a fogo pelos varões da tribo, quando o menino tem entre 8 e 10 anos. Sem estas marcas ele não terá direito a uma esposa. As marcas que o acompanharão até a morte, nem se comparam com as feridas da alma que este povo sem esperança carrega.

Eles também já sofreram seu genocídio próprio, isto ocorreu em 2003. Para ser mais exato, entre os dias 13 e 16 de dezembro de 2003. O genocídio foi tão cruel e violento que tornou-se indescritível (http://ww w.anuakjustice.org/downloads/GENOCIDEINWESTERNETHIOPIA.pdf).

Os anuaks pastoreiam ovelhas e cabras e têm pequenos jardins perto de suas casas. Eles cultivam a maior parte do que comem. Quando o solo de uma aldeia esgota-se, os anuaks mudam-se para outro lugar fértil próximo para cultivar. Não há cooperação ou trabalho de equipe entre as aldeias no cultivo do solo. Consequentemente, cada aldeia é auto suficiente e isolada das outras. Não há educação, não há eletricidade, água tratada e nem serviço médico. Isto para uma população de 30 mil pessoas.

Quase 95% dos anuaks são animistas (creem que objetos inanimados têm espírito), seguindo sua religião étnica tradicional. Também praticam a adivinhação e feitiçaria.

Não há informação de nenhum cristão entre eles. Realmente isto é quase impossível, pois, em todos os povos em contato com a civilização, existe algum testemunho de fé. Esta, no entanto, é a informação que se obtêm tanto nos meios de comunicação, como da liderança cristã sudanesa.

Líderes da Igreja no Sudão não sabem de nenhuma missão evangélica que esteja atuando lá, muito menos alguma tradução do evangelho em sua língua. Ouvi falar que os presbiterianos sudaneses estão tentando algo na tribo.

Teria alguém coragem de começar um compromisso sério de intercessão pelo pior lugar do mundo para se viver?

Teria algum intercessor, força para iniciar uma revolução em favor do povo que foi abandonado por quase todos?

Khartoum, Sudão – Verão de 2011.

Anézio Massuia

P.S. Se houver alguém, por favor, em nome de Yeshua, que deu Sua vida por este povo que só conhece o lado ruim da vida, coloque estes nomes no mural de seu coração: Akobo e Anuak.


20/11/2010 – Impactado pelas tribos Turkanas

Saímos por volta das 9:30h rumo as tribos Turkanas. As distâncias das cidades de Lodwar são 16, 22, 28 e 41km. Fomos apenas nas três primeiras, pois na última teríamos que andar cerca de 20km a pé, carro não consegue chegar lá.

Entramos deserto a dentro, uma paisagem muito branca com vegetação baixa totalmente seca. Imos dois redemoinhos de areia muito alto. Avistamos a primeira tribo. Estavam todos reunidos debaixo de uma grande árvore, ali era o templo deles, o culto havia começado, de longe conseguimos ouvir o barulho de tambor e vozes cantando.

Na medida que aproximamos as cores iam ficando mais vivas e a música mais bonita. O pr Francis disse que eles estavam adorando a Deus. Uma emoção muito forte tomou conta de mim, tentei conter as lágrimas. Como eles são lindos, tudo muito colorido, olhos brilhantes. Olhava em volta só deserto, me perguntei muitas vezes como eles conseguem adorar a Deus com tanta alegria sendo que lá não tinha nada. A resposta veio imediatamnete quando pude ver que Deus estava ali se deliciando com aquela adoração.

Não importa quão seco e quão inóspito seja um lugar, se Deus está ali, há vida.

Depois de algumas danças o pr Francis nos apresentou, então tivemos a oportunidade de nos apresentar. Muito interessante, eles são muito pentecostais, eles vibram, dão glória a Deus (Kipra Yessu, em turkana), realmente tremendo. Deram alguns testemunhos. Nos apresentaram o ex-feiticeiro e o ex-curandeiro da tribo que se converteram a Jesus, alías, toda a tribo havia se convertido. Também mudaram um dos costumes que era dos velhos se casarem com as moças, agora as moças só casam com os jovens moços mais ou menos da mesma idade.

Foram todos muito amáveis e receptíveis, partimos então para a próxima tribo. Essa segunda é a que tem a igreja mais antiga, cerca de 11 anos. Quando chegamos também coseguimos ouvir os tambores e canções a longa distância. Já era uma tribo com mais estrutura, vimos inclusive a escola primária que eles tem. Entramos na igreja (construção de barro) e tudo aconteceu muito parecido com a primeira tribo. Fomos também impactados por eles, pela beleza e alegria. Jesus estava lá. Nessa ficamos menos tempo e partimos para a outra.

Ficamos sabendo que os irmãos e irmãs da última tribo viria se ajuntar com a terceira, ou seja, várias pessoas andariam a pé cerca de 20 km só para se encontrarem conosco. Ficamos lisonjeados. De longe vimos aquelas pessoas debaixo de uma grande árvore, deveria ter mais de 60 pessoas contando com as crianças.

Ali passamos um tempo a mais com eles. São muito simples e amáveis. Deu vontade de ficar ali com eeles e de abraçar um minininho que saiu correndo e chorando de medo de mim, afinal um homem de cor esquisita, alto e segurando uma coisa estranha (minha câmara) até eu ficaria com medo! Ficaram todos surpresos quando mostrávamos as fotos que tiramos deles, acredito que nunca tinham visto antes.

Na despedida, quando entramos no carro, muitas crianças nos rodearam, rindo e brincando, achamos que era conosco até que percebemos que era com o reflexo deles na lataria do carro, imagina se tivéssemos um espelho ai?

Missão cumprida, fomos embora. Sem saber de nada fomos levado a uma outra tribo, já perto da cdade. Quando chegamos lá estava tendo um culto, entramos e umas crianças vieram apresentar uma dança. Depois o pr Francis pregou e falou do desafio que ele precisa vencer, que é de comprar 2 motos para os 4 pastores, pois até então eles andam a pé de Lodwar até seus destinos duas vezes por semana, um deles anda 41km pra ir e 41 pra voltar, estive lá, vi como é duro o caminho. Espero que alguns brasileiros se mobilizem e os ajudem na compra dessas motos, bicicleta não aguentaria o tranco.

Agora sim fomos embora. Almoçamos já quase as 16h. Comprei um típico banquinho e cajado turkana e fui descansar. O banquinho deve ter 20 cm apenas e é bem leve. Eles carregam pra todo lado. Bom esse foi o penúltimo dia da viagem, nem fui embora e já estava com saudades de tudo que vi.

 


18/11/2010 – Chegada em Lodwar

Arrumamos nossas malas, tomamos o último café da manhã e oramos juntos pela próxima viagem, pois as notícias que tínhamos sobre a estrada entre Kakuma e Lodwar frequentemente Turkanas armados paravam carros para roubar tudo que encontrassem, inclusive já tiveram conflito com trocas de tiro entre a polícia.

Pegamos a estrada e pela graça de Deus foi tudo em paz. Durante o percurso de uma hora e meia passamos por várias tribos e pessoas. Uma região muito desértica, não entendemos como as centenas de ovelhas e cabras que vimos por todo percurso conseguiam sobreviver.

Chegamos em Lodwar, uma cidade muito movimentada. A energia dela é fornecida por 4 geradores que funcionam individualmente um após o outro a cada 6 horas. As ruas são de areia. Nos encontramos com pr Francis, umhomem alto quase tão negro quanto aos sudaneses. Ele nos levou ao lugar onde passaríamos a noite. Após isso nos levou num lugar (tipo restaurante) para nos apresentar aos seus pastores que trabalham diretamente com as tribos Turkanas. Tudo aconteceu bem formalmente. Achei interessante que aqui eles servem a sobremesa antes do almoço.

Por volta das 16h o pr Francis nos pegou e nos levou até a sua casa. Um bairro afastado do centro. Tudo muito simples e primitivo (apesar de ter energia) e muita areia. Sua casa é bem simples, porém de bom tamanho. Ele mora com seus 4 filhos e 6 órfãos. Algumas crianças se ajuntaram a nós enquanto íamos conhecer a igreja dele que fica a uns 10 minutos a pé.

Chegamos lá. Maior que eu pensava, mas muito simples (alías, em todo lugar tudo é muito simples). Enquanto ele nos explicava como funcionava os cultos e o trabalho dele vinha crianças de toda parte, cinco, dez, quinze, quando saímos de lá deveria ter mais de vinte. Segundo o pr Francis, sua igreja tem cerca de 200 crianças, mas normalmente vão cerca de 400.

Parece um número exagerado. Mas enquanto voltávamos para o hotel a pé (cerca de 45 minutos) vimos crianças por todo lado, muitas mesmos. Quando cruzamos um centro comercial deveria ter umas 50 crianças ou mais nos acompanhando, elas brigavam entre si para ver quem segurava nossas mãos. Todo mundo parecia muito surpreso de ver 4 brancos andando por la, pela reação e pelos olhares curiosos acredito que fomos os primeiros brancos a passar por ali. Nos sentimos importantes, tudo parou porque quatro muzungosestava passando. Foram muito amáveis.

Quando cumprimentávamos em swahili ou em turkana eles riam muito. Novas crianças chegavam. Rodrigo e eu ficamos impactados com tudo que vimos. O pr Marcelo me disse assim “agora você sabe o que eu sinto quando venho para povos como esses”. Depois dessa experiência maravilhosa fomos jantar e depois descansar. No outro dia iríamos para o interior visitar 3 tribos turkanas diferentes, em duas delas provavelmente os primeiros brancos.

Tem uma tribo que começaram um trabalho recente que fica a 41km de Lodwar. Lá, segundo o pr Francis, ele e mais os outros pastores foram as primeiras pessoas vestidas de camisa e calça que aquela tribo viu. Eles chegaram lá de moto, ficaram todos desesperados de medo quando viu aquele negócio barulhento e rápido chegando, imagina quando virem 4 homens brancos chegando? Espero poder ir lá.


18/11/2010 – Visita ao interior do Campo de Refugiado Kakuma

O dia começou cedo, pois deveríamos tomar café da manhã antes das 8h e nos arrumar para ir ao interior do campo de Refugiado. Exatamente às 8h o pastor a quem temos contato lá dentro nos liga e dez minutos após nos encontra no portão principal (não citarei o nome do pastor por medidas de segurança dele).

Esse pastor tem igrejas dentro do campo cercado por mulçumanos. Entramos a pé no campo e fomos direto num ponto de taxi lá dentro. Assim que entramos no taxi (tipo vãn) fomos cercados por somalis. Um deles bem distinto, parecia um líder somali meio nervoso, questionava o pastor porque homens brancos estavam entrando lá. Ficamos tensos, eles queriam uma carta da ONU nos autorizando entrar. Fizeram algumas ligações e após uns 15 minutos nos liberaram.

No campo as etnias e famílias são separadas, algumas com cercas vivas de epinhos e outras com arame farpado. Passamos pela rua comercial, vimos muita gente, muitas lojingas tipo camelôs no Brasil, açougues extremamente precários. Algo realmente tremendo. Passamos pelo local onde fazem distribuição de comida, pré-escolas e hospitais. Tudo funciona como uma cidade.

Um tipo muito distinto de cidade, pois vimos mulheres de burca (só com os olhos de fora), mulhres com colares de 20 a 30 cm de altura cobrindo todo o pescoço, mulçumanos, animistas, cristãos, nativos muito primitivos tudo misturado. Uma mistura de 22 países e diversos grupos étnicos.

Andamos por 1:30h e mesmo assim não conseguimos ver tudo. Muito grande. Lá no meio passa um rio que agora está seco, mas que durante a época de chuva ele enche. Muito interessante a variedade da arquitetura da casas. Um ótimo lugar para fazer trabalhos antropológios e etnográficos.

Nossa parada foi na casa do pastor lá dentro do campo. Casa muito simples e pequena. Ali tivemos uma grande lição de vida e de trabalho evangelístico em povos tão diversificados. O pastor nos contou que já teve sua igreja apedrejada por mulçumanos somalis. A sua resposta quanto a isso foi amá-los abrindo um poço de água e os servindo. Hoje ele conta com alguns somalis convertidos, porém escondidos (quando um somali se converte ao cristianismo é condenado a morte, a Somália está em quarto lugar na classificação de países que perseguem cristãos), de inimigo passou a ser amigo do povo, pois decidiu amar.

Esteve conosco um outro pastor, que assim como o primeiro, também é assistido pela MCM e uma viúva de um ex-obreiro da MCM. Oramos juntos e voltamos para as dependências da ONU. Fiquei muito feliz e me senti privilegiado de conhecer verdadeiros heróis da fé que rompem em Deus em lugares tão inóspito ao evangelho como o campo de Refugiado Kakuma. Hoje a igreja desse pastor conta com cerca de 150 a 200 pessoas em sua igreja de vários paízes e grupos étnicos diferente. Fomos emboras jubilosos.


17/11/2010 – Ultimo dia em Torit / Chegada em Kakuma

Acordamos cedo para arrumar nossas malas e deixar tudo pronto para viagem. Às 09h já estava tudo preparado. Iríamos começar a preparar o almoço às 10h então aproveitei para passar os últimos momentos com as crianças em Torit.

Quando cheguei lá, não consegui me alegrar, pois em poucas horas estaria deixando a cidade. Foi tudo um clima de despedida, olhos cheios de lágrimas, nó na garganta. O pensamento que me passava era de quando será que terei a oportunidade de reve-los. A nossa oração é que após o Referendum as fronteiras não se fechem. Recebemos muitas cartinhas, algumas fotos e muito carinho.

Nem conseguimos almoçar direito. O vôo estava marcado para às 11h, mas veio após as 13:30h, enquanto esperávamos na porta da guest house (que fica ao lado do aeroporto) muito das crianças e adolescentes das casas de órfãos veio ficar conosco. O que mais escutei foi “Fabiricho, don’t go, stay here!”. Vou sentir falta de escutar Fabiricho e Rodirico.

Enfim escutamos o barulho do avião. Saíram todos eles correndo para o aeroporto, chegaram primeiro que nós. Enquanto o piloto guardava nossas malas fomos nos despedir. Apenas silêncio e lágrimas. Dizer o quê? Foi um tempo tão curto, mas muito marcante. Só quem foi até lá pode saber disso. Fiquei surpreso, pois vi algumas delas chorando sendo que pra mim eu não tinha feito nenhuma diferença na vida delas, mas me enganei. Ah Jesus! Deixa eu voltar em breve!

Partimos.

Paramos em Lokichokio para pegar o visto de entrada do Quênia. Lá nos encontramos com o Nicolau que havia preparado tudo para o restante do dia. Almoçamos novamente por volta das 15:30h e pegamos um taxi para Kakuma que fica a uns 40km de Lokichokio.

Chegando em Kakuma entramos em contato com uma senhora da ONU que nos recebeu no Campo de Refugiado Kakuma (o mairo do Quênia com 78000 refugiados de mais de 20 países). Fomos muito bem acolhidos nas dependências da ONU onde passamos a primeira noite em segurança após 10 dias de viagem.

Essas dependências são ocupadas por 12 grandes ONGs de várias partes do mundo, cada uma com uma função específica para os refugiados, uma é apra comida, outra para imigração, outra saúde e assim vai. São cerca de 1000 trabalhadores mais cerca de 10000 refugiados que ajudam no trabalho.

Amanhã vai ser um grande dia, pois vamos conhecer a igreja que a MCM apoia lá entre os refugiados. Essa igreja tem até casos de perseguição, pois grande parte dos refugiados são mulçumanos extremistas da Somália. Que Deus nos ajude lá.

Quanto ao clima, aqui é mais fresco que Torit, porém muito seco. É uma região desértica, estava fazendo um pouco menos que 40 graus.


16/11/2010 – O que é o Referendum?

Nesse dia programamos algumas coisas para fazer no centro da cidade, mas descobrimos que foi decretado um feriado nacional por conta do cadastramento para votação do Referendum. Todas as pessoas que não nasceram em Torit deveriam voltar para suas tribos natais. Foi o dia todo caminhões indo e vindo lotados de pessoas (aqui não existe ônibus), eles precisam se cadastrar lá onde nasceram.

Citei muitas vezes o Referendum, mas afinal o que é? O Sudão passou por mais de vinte anos de guerra entre o Norte e o Sul. Em 2005 foi feito um acordo de paz de 6 anos que terminaria com um Referendum para decidir a independência do Sul ou não (como aconteceu com a Coréia). O povo do Sul estão muito felizes pois é a oportunidade de se tornarem um país independente, porém os políticos estão tensos, muito tensos. Tem duas razões para essa tensão. A primeira é que toda riqueza do Sudão fica no Sul (há possos de petróleo e terra fértil) e a outra é que o Norte é 100% mulçumano radical.

Se o país dividir dificilmente Al-Bashir, presidente do Sudão que vive no norte, permitirá que o Sul fique com as riquezas, então tomaria os poços a força, uma nova guerra civil pode começar. Ele é condenado pelo Tribunal Internacional (acho que é esse o nome) por genocídio, foi acusado de matar mais de 4 milhões de pessoas. O outro problema é que se unificar o país Al-Bashir já decretou que vai estabelecer a Sharia em todo o Sudão, ou seja, todos os cristão e animistas que vivem no Sul devem se converter ao islamismo ou morrerão, as igrejas fecharão, os missionários serão deportados, as portas do evangelho serão fechada e Al-Bashir já disse que mandará todas as ONGs de ajuda humanitária pra fora do país. Os sulistas não vão aceitar isso, então uma nova guerra civil pode começar. Independente dos resultados a guerra civil pode recomeçar, apenas um milagre de Deus pra tudo ocorrer em paz. Esse é o Sudão!

Bom, Rodrigo e eu aproveitamos para passar o dia todo na casa das crianças. O assunto principal foi a nossa partida que seria no outro dia, elas diziam que iriam chorar muito, acredito que eu também. Para mim foi o melhor dia que passei com elas, recebemos muitas cartinhas com folhas e flores desenhadas, com palavras do tipo “I love you” e “I’ll miss you”, ah….. vou sentir falta delas, muita falta, são lindas e fofas. Fomos embora e a espectativa da partida só aumentando, a primeira parte da viagem estava chegando ao fim.

 


14/11/2010 – Culto africano e pré-casamento

Essa última noite não foi tão tranquila quanto as outras. 00:15h acordei com um rato mexendo nas comidas e um pernilongo dentro do meu “mosquito-net” (aquelas redinhas que coloca por sobre a cama). Levei uns 30min para espantá-los sem acordar o Rodrigo. Estava muito quente e abafado.

Consegui dormir novamnete, mas por volta das 3:00h sonhei com uma feiticeira típica da região com dois acompanhantes. No sonho, muito real por sinal, a feiticeira invade a casa onde eu estava e diz para mim: “É melhor você acreditar no seu Deus senão não vai conseguir sair daqui”, na mesma hora o Rodrigo começou a definhar desesperadamente e muito rápido. No tempo em que eu declarei “te repreendo em nome de Jesus” a feiticeira me levanta pelo pescoço e então acordo. No quarto não conseguia ver nem um palmo na minha frente, mas pude sentir uma presença muito malígna. Só me restou orar e depois de algum tempo consegui dormir. Quando acordei pela manhã entendi que era uma guerra espiritual por que hoje eu seria o pregador do dia (e acredite se quiser, a partir desse sonho minha garganta ficou muito ruim, como se tivesse realmente levado uma pancada muito forte nela, custava engolir até minha própria saliva, só foi melhorar quando cheguei em Nairobi).

O culto começou as 7:00h e foi até umas 14:00h (muito diferente do Brasil que geralmente os cultos tem apenas cerca de 2 horas de duração). Muita música, muita dança e apresentações. Chegou minha vez de pregar. Apesar de conseguir me comunicar bem em inglês preferi pregar em português, assim seria mais fácil pra mim. O pr Marcelo me traduziu para inglês e uma mulher o traduziu para árabe. Me senti importante com esse tanto de tradutores! Foi uma mensagem simples e edificante sobre o obstinado amor de Deus manifesto na Cruz para nos salvar. Voltamos correndo pra casa para fazer almoço, pois em pouco tempo iniciaria o pré-casamento.

O evento foi na mesma igreja “Redeemed Church” do pr Joshua. Ao entrar, Rodrigo e eu tivemos que pagar cerca de R$ 7,00 e o pr Marcelo uns R$ 40,00 por ser um convidado especial. Teve música e pregação. Depois os noivos foram apresentados e iniciam um momento de recolher dinheiro dos convidados. Todo esse dinheiro é para ajudar a pagar o dote da noive (16 vacas no valor de mais ou menos R$ 350,00 cada) mais a festa que dura de 3 a 7 dias dando comida para os convidados e penetras, e ái do noivo se a comida não for boa.

Nesse pré-casamento os convidados especiais fazem tipo de uma comitiva ali mesmo para decidir como vão distribuir o dinheiro arrecadado. Os noivos não podem palpitar em nada. Saímos antes de acabar (começou as 15h e foi acabar depois das 20h). Não estávamos legal, pois além do calor estar muito forte nesse dia o som estava super ultra alto. Voltamos para guest house e fomos descansar.

Aqui na guest tem um barzinho funcionando junto. Das 18h às 22h o gerador de energia é ligado, então a TV fica ligada e os vizinhos vem para cá. Nesse dia passou futebol. Achei muito interessante, os sudaneses para assistir um jogo é muito parecido com os brasileiros, vibram, gritam, sofrem e aplaudem.

Fomos jantar e por mais de uma hora conversamos sobre missões e o papel das escolas de treinamneto missionário, mais uma grande aula com o pr Marcelo.  No outro dia seria só para descanso, sem nada para fazer, então não terei nada para escrever. Os dias em Torit estão chegando ao fim, daqui dois dias partiríamos para Kakuma, norte do Quênia com muitas experiências novas.


13/11/2010 – Novo dia, novas experiências

Logo que acordei fui pra casa das crianças, mas fiquei só uns 40 minutos, pois teríamos uma reunião com os parentes e guardiões dos órfãos que se mudaram para Nairobe.

A reunião começou umas 11h. Pr Marcelo contou os milagres que Deus tem feito aqui e também mostrou dois vídeos com fotos da viagem dos órfãos ao Brasil e de como estão em Nairobe. Ficaram todos muitos felizes e agradecidos, teve uma senhora que não parava de dar tchau pra tela do computador enquanto as fotos passavam. Muito interessante a reação que cada um teve.

Pude conhecer alguns dos parentes dos meninos, tiramos fotos e dançamos. A reunião acabou às 13h. Passamos a tarde com as crianças conversando e rindo muito. Mostramos como nossas culturas são diferentes. Conhecemos a mais nova órfã da casa. Ela deve estar com no máximo 2 meses de idade. Chegou na casa muito magra, só por milagre não ter morrido. Seu nome é Glória, muito fofa e agora gordinha, muito bem cuidada. Seus pais morreram num acidente de carro a poucas semanas.

Pr Joshua veio e nos levou com mais um monte das crianças para uma reunião de oração. Lá cantaram, dançaram e oraram. Nos chamara para orar pela família daquela casa. Oramos e nos sentamos, logo veio uma mulher com uma bacia e água para lavar nossas mãos, atrás dela uma outra mulher trazendo a comida. Foi minha primeira experiência comendo usando as mãos. A comida estava uma delícia, tinha arroz, feijão, uma carne muito saborosa e pão. Com os dedos sujos eu automaticamente levei-os a boca como comumente fazemos no Brasil, imediatamente fui repreendido, pois esse gesto de limpar os dedos com a boca é uma ofensa aqui.

Após o jantar voltaram a dançar, mas antes de terminar tive que ir embora. Amanhã o dia começa cedo. Precisei descançar, pois no outro dia o pregador do culto seria eu.

 


12/11/2010 – Um tempo com as crianças

Uau! Foi a noite que mais dormimos, acredito que seja por causa do cansaço do dia anterior. Era umas 9h quando Rodrigo e eu fomos para a casa das crianças. A intenção era ir pesquisar o tamanho que elas vestinhas e suas necessidades quanto a roupas. Um obreiro, o Emmanuel se prontificou para fazer isso, então o Rodrigo teve uma idéia. Ele pegou seus fantoches africaninhos e foi contar uma história para as crianças. Como elas riram, acredito que nunca tinham visto fantoches antes. Depois cantamos, dançamos e brincamos com elas, eu até joguei bola, acredita nisso?

Voltamos para almoçar. Enquanto o comíamos o pr Marcelo nos deu uma grande aula de missiologia. Depois o pr Joshua chegou e fomos tratar alguns assuntos burocráticos e de segurança da casa das crianças. Tanto o pr Marcelo quanto o pr Joshua me surpreenderam por conta de tanta sabedoria que eles tem.

Rodrigo e eu fomos outra vez para casa das crianças, só que desta vez apenas conversamos com eles. Logo voltamos para ghest pois já havia escurecido. O dia passou muito rápido. A cada momento que passo com as crianças um pedaço de mim fica com eles, são muito amáveis.


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